quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Livro:"Redenção" de Livia Lorea

Bem,esse livro para realmente bom,e a autora já fez até Book Trailer que irei colocar para voces verem,vamos conferir um pouco sobre essa obra ainda não publicada por editoras,e sim pelo Bookess ( boba das editoras):
Vamos conferir o primeiro capitulo dessa historia realmente fascinante?
Capítulo 1
Mudanças
D
izem que nada acontece por acaso e que tudo o que acontece nesse mundo vem da vontade de um ser superior a todos nós. Para alguns Deus, outros Jeová, Jesus Cristo. Eu sempre acreditei numa força superior capaz de escrever os meus passos, uma força que acima de tudo me protegia e guiava para que eu não caísse em desgraça ou em tentação, no entanto essa confiança caiu foi abalada e por questões que eu ainda busco descobrir, tudo mudou. Eu mudei.
 Todas as manhãs um ritual quase sagrado acontecia em minha casa. Minha mãe me acordava as 07:00 para que pudesse tomar café antes de sair. Eu trabalhava em uma loja de roupas num shopping próximo de minha casa na Zona Norte de São Paulo. Apesar de muitos reclamarem da loucura dessa cidade imensa eu a amava, e ainda amo, com tanto fervor e carinho, que não admito que digam uma só palavra de maldade sobre essa preciosidade. Minha vida era comum, como a vida apressada da maioria das pessoas que vivem por aqui.
Era manhã de junho, um dos meses mais frios para nós, e como sempre eu demorava um pouco para levantar da cama. O tempo frio era propício e me fazia querer ficar debaixo das cobertas sempre mais cinco minutinhos. O cheiro do café fresco subiu pelas escadas e era esse o mais forte motivo de eu sair da cama, mesmo que com muito esforço. Um banho quente revigorava minha cálida alma e depois eu vestia meu uniforme de trabalho sem muita vontade já que ele não era lá uma grande obra da moda. Meus pais, avô e irmão de cinco anos, por mais frio ou calor que estivesse, estavam de pé antes de mim e por isso era comum eu tomar café da manhã sozinha.
Assim eram as minhas manhãs, eu saia para trabalhar pontualmente as 7:40 para pegar o ônibus das 7:50 num ponto próximo de casa. Mesmo sendo cedo, a quantidade de pessoas apressadas nas ruas me surpreendia todos os dias. Eu tinha meu próprio carro, presente de meus pais, um Chevrolet 2004 vermelho, mas por incrível que parece eu me sentia bem em pegar ônibus e poder ver as vidas alheias passarem diante de mim. Aliais uma das minhas grandes qualidades, até hoje, é ser observadora, atenta às coisas que acontecem ao meu redor, eu era do tipo que gostava de passar horas olhando a vida passar da janela, muitas vezes observando demais e participando pouco e talvez esse fosse o primeiro sinal de que havia alguma coisa diferente comigo.

Aquele dia estava mais frio do que o de costume para mim e ao olhar pela janela vi que uma densa névoa cobria a rua de um modo estranho e amedrontador. Estremeci. Segui o ritual de sempre pronta para mais um dia de trabalho. Eu iria de ônibus, pois naquele dia meu carro não podia rodar. Antes de sair beijei todos da família e corri para fora de casa sem sequer imaginar que a partir daquela enevoada manhã minha vida mudaria completamente.
A porta bateu atrás de mim e naquele instante um arrepio correu minha espinha, lembro como se fosse hoje, mesmo de luva e muito bem agasalhada meu corpo tremia e no fundo de minha alma eu sabia que não era de frio. Atravessei o portão e cruzei a rua seguindo em direção ao ponto onde logo meu ônibus passaria. Não tinha nem duas pequenas quadras entre minha casa e o meu destino. Talvez o percurso até o ponto fosse de três minutos. Três minutos. Eu senti a aproximação de alguém vindo em minha direção. A névoa estava tão estranhamente baixa e densa que eu não consegui saber se esse alguém vinha pela minha frente ou por trás de mim. Parei e esfreguei os olhos tentando ver além do que via, mas tudo diante de mim estava esbranquiçado e só o que eu pude ver foram os vultos apressados que passavam ao meu lado.  Olhei em volta forçando mais ainda a visão, estava impossível enxergar. Uma sensação de impotência nasceu em minha cabeça, pois eu estava indefesa. Olhei mais uma vez em volta e depois de ouvir um barulho alto, tudo o que era branco diante de meus olhos se tornou escuridão.

*****

Um som familiar surgia entre bipes e barulhos desconhecidos que vinham distantes. Reconheci o som familiar como sendo a voz suave de minha mãe que parecia orar de cabeça baixa. Eu abri os olhos e me vi deitada num quarto amplo, claro, com máquinas que mediam todos os meus sinais vitais. Havia uma parede cheia de janelas, com pesadas cortinas impedindo que a luz do Sol entrasse. Flores, pelúcias e outros presentes estavam espelhados pelo quarto. Meus olhos tentavam se manter abertos, mas era um esforço tão grande. Eu não entendi bem o que estava acontecendo. Aquele lugar certamente era um hospital, isso eu já tinha percebido, e por mais viva que eu estivesse, um forte cheiro de morte entrava por minhas narinas.
— Minha filha! — ouvi minha mãe exclamar tão alto, que pareceu que meus ouvidos explodiriam se ela voltasse a falar. Ela me abraçou e me beijou diversas vezes, como se a qualquer momento eu pudesse ser arrancada dos seus braços. Estava na cara que ela não dormia nem se alimentava direito já há algum tempo — Minha filha amada... Minha linda, graças a Deus você acordou! — disse entre lágrimas.
O rosto de minha mãe não estava corado e saudável como o que eu conhecia, ele estava pálido, magro, com olhos fundos em olheiras escuras que mostravam toda a angustia que ela carregava. Após a comoção inicial, ela correu para a janela e abriu as cortinas, que protegiam o quarto dos raios do Sol. Eu não sei bem explicar o que ocorreu nesse momento, pois aquela luz forte em meus olhos recém - abertos, depois de uma escuridão que parecia eterna, se espalhou pelo quarto me cegando e dando a leve impressão de meu corpo estar ardendo como se eu estivesse deitada sobre brasas. Eu gritei um grito cheio de dor e desespero, sentei - me violentamente na cama:
 — FECHE AS CORTINAS POR FAVOR, ESTÁ QUEIMANDO... MUITO! – apontei para meu próprio corpo e continuei gritando. — MEU CORPO ESTÁ QUEIMANDO...
Ao ver a minha reação, tudo que minha querida mãe fez, foi correr para as janelas e fechar as cortinas. Assim que isso foi feito ela se voltou para meu leito e disse:
 — Pronto minha filha, pronto! — ela estava visivelmente assustada, mas mesmo assim tornou a me abraçar.
Com a cabeça em seu colo, tive a estranha sensação de poder ouvir até mesmo os batimentos cardíacos de seu coração. Para mim eles estavam tão fortes e vibrantes, que sem saber por que, eu percebi que aquele som me enchia de prazer. O som de um coração bombeando sangue para o resto do corpo. Eu levantei a cabeça e vi o pulsar da veia de seu pescoço. Nunca me esqueci daquela imagem, pois foi naquele instante que percebi que havia algo de errado comigo.
 — Mãe? — eu comecei ainda sob seus abraços. — O que aconteceu comigo? Por que estou aqui?
Eu estava tão perdida e assustada que tudo o que eu queria eram respostas. Eu precisava saber quais seriam as explicações para o que eu estava sentindo.
— Filha... — minha mãe estava visivelmente abalada e sua voz rouca e fraca dizia isso — Você levou um tiro... Talvez uma bala perdida, ninguém sabe.
A minha cabeça começou a rodopiar fazendo esforço para puxar a memória que guardava aquele dia que estava apagado dentro de mim. Eu queria lembrar, queria poder assimilar a idéia de ter sido vítima da violência cativa dos noticiários. Fechei os olhos, mas nada sobre tiro ou bala perdida vinha à minha mente.
 — Tiro? Onde? Como?
 — Sim... No dia 17 de junho, pouco depois de sair de casa... — ela beijou minha testa e fez um carinho que eu adorava — Mas Ruby sinceramente não quero falar disso, o que importa é que você acordou.
Eu não queria que ela parasse, queria que ela falasse, mas isso trazia dor e desespero ao coração de minha mãe e a última coisa que eu desejava era fazê-la sofrer. Entendi que ela já estava sofrendo demais. Me calei, mas minha cabeça ficou a mil tentando lembrar o que realmente havia acontecido. O que eu tinha absoluta certeza era que o cheiro daquele hospital estava me deixando com uma sensação esquisita, que misturava o desejo e o enjôo.
 — Mãe você está sentindo como esse hospital tem um cheiro forte? — perguntei sem preocupação.
 — Cheiro? Não sinto cheiro algum...
 — Tem certeza? — perguntei de novo. — Um odor de coisa morta... Sangue... Aff! — suspirei com pesar me virando.

Ela torceu o nariz e fez sinal negativo com a cabeça. Só eu conseguia sentir o cheiro confuso de morte que vinha pelos corredores daquele lugar. A percepção para as coisas ao meu redor estava tão à flor da pele que era como se eu fosse um grande radar captando tudo ao meu redor. Eu fiquei enjoada e com tontura, tamanha era a quantidade de informações que não escapavam dos meus sentidos. Tudo soava alto demais, perto demais, forte demais. Naqueles poucos minutos, vi meu ser tomado por uma explosão de sensações novas e surpreendentes que me levavam a loucura. Uma loucura íntima que pulava dentro de mim. Fechei os olhos e me encolhi no colo de minha mãe, tentando fugir daqueles loucos sentimentos, mas o som que vinha do seu corpo era mágico e maravilhoso e só me trouxe mais enjôo.
 — O que foi filha? — minha mãe perguntou com ar de preocupada. — Você tá sentindo alguma coisa?
A verdade era que eu estava sentindo muitas coisas. Esse era o problema ali. Prendi a respiração, coloquei as mãos nos ouvidos, fechei os olhos e fiz que sim com a cabeça.
 — RUBY? — ela sacudiu os meus ombros.
Sem poder controlar o que subia pela garganta, curvei o corpo para fora dos braços de minha mãe e vomitei sangue, afundando em seguida na cama, pálida e completamente sem forças, mas ainda a tempo de ouvir os gritos de socorro para a enfermeira. Ao acordar mais tarde, meu corpo doía por completo. Era como se eu tivesse levado uma boa surra enquanto dormia. O quarto estava aparentemente vazio, mas meu pai dormia num sofá próximo de mim, com um rosto sereno e despreocupado. As sensações que ainda cedo me fizeram passar terrivelmente mal estavam mais sutis, ou talvez àquela altura eu estivesse me acostumado com elas. Me sentei na beira da cama, vez ou outra levando a mão a boca e ao estômago que teimava em ficar embrulhado. Sem dúvida nenhuma eu estava bem melhor. Levemente atordoada, levantei e fui com incrível agilidade ao banheiro para poder ver a minha cara amassada. Ascendi a luz, olhei - me no espelho e me assustei com o que vi. Não reconheci meu rosto. Aquele reflexo era belo demais para ser o meu. Não tinha cabimento que uma quase morta como eu estivesse tão bela. Os olhos grandes e amendoados não se pareciam com os meus, estes que me retribuíam o olhar eram mais vivos e brilhantes. Os lábios carnudos e perfeitamente delineados eram de um vermelho escuro, como se tivesse sido desenhado por um grande pintor.  Minha pele nunca estivera tão perfeita - toquei minhas maças - senti sob os dedos a maciez de uma rosa. Meus cabelos negros e encaracolados emolduravam perfeitamente o meu rosto brilhando num tom preto - azulado hipnotizante. Aquela imagem parecia uma pintura e eu só podia estar sonhando. Ainda sim fiquei mais alguns minutos me observando, pois o que eu via ali era mais do que meu reflexo, era o reflexo de uma criatura cheia de perfeição nos menores detalhes, onde tudo se encaixava harmoniosamente.
Fazendo esforço para sair de frente do espelho, segui com extrema agilidade para a cama, onde voltei a deitar para talvez sentir minha cabeça girar menos do que ela parecia girar. Respirei fundo algumas vezes na esperança de colocar em ordem meus pensamentos. Alguma coisa dentro de mim dizia que eu precisava entender o que se passava com meu corpo. Sem querer e sem perceber peguei no sono e deixei minha inconsciência cheia de sonhos se apoderar de meu sensível corpo.

***

“Eu estava vestindo uma roupa um pouco infantil: um vestido branco com rendas, laços e fitas, cheio de detalhes. Ele tinha mangas bufantes e apesar do ar menina que me conferia eu nunca havia me sentido tão mulher e tão fatal. Meus cabelos estavam presos num rabo de cavalo, com uma grossa fita vermelha. Certamente eu estava fantasiada. Aquela que eu via em meu sonho era eu, o meu novo eu. Um rosto lindo e perfeito, um corpo pequeno e delicado como se tivesse sido esculpido em homenagem aos deuses. Tudo estava tão fisicamente real que por um breve momento tive medo, apesar de sentir no coração que eu não devia temer nada nem ninguém. Eu era uma telespectadora e ao mesmo tempo em que sentia eu via como um filme na TV tudo o que estava acontecendo. Aquilo não podia deixar de ser somente um sonho.
Do alto de uma antiga e imponente escada eu observava cada novo rosto que surgia sob os arcos de entrada do que provavelmente era um grande salão. Não conseguia ver ninguém que realmente chamasse minha atenção e eu parecia estar entediada. Um homem belo e de ar arrogante cruzou as grandes portas em passos firmes, tão firmes que pude ouvi - los. Fiquei perdida no instante em que os olhos dele, de um azul sem igual, olharam os meus e sem rodeios e cerimônias eu me inclinei sobre o corrimão e pulei. Queria chegar perto dele o mais rápido possível, algo dentro de mim o reconhecia e aquecia meu frio coração, por isso praticamente voei leve, suave e cheia de paixão no olhar. Os demais convidados sentindo minha agonia abriram espaço para que eu pudesse passar. Aquelas pessoas que estavam em meu caminho me olhavam com medo e sem querer entender continuei avançando até chegar ao meu objetivo. Ele era tão lindo e perfeito que no momento em que parei tive a certeza de que aquela era a minha real fraqueza. Eu senti que ele era o meu ponto fraco, como se qualquer coisa que o ferisse pudesse ferir a mim também. Desejo foi a primeira palavra que veio a minha cabeça. Aquilo era um sonho, eu tinha certeza, pois um anjo daqueles não poderia ser real, além do mais eu e todos aqueles que ali se encontravam emitiam a sensação de estarmos num pedacinho de céu povoado por lindos anjos e arcanjos. Logo que me aproximei ele me olhou com uma ternura que eu não esperava. Quem era ele eu não sabia e mesmo fazendo esforço para falar eu não conseguia emitir som algum, era como se o som da nossa conversa tivesse sido colocado no zero, ocultando assim as respostas que eu queria.
Ao mesmo tempo em que eu parecia viver aquilo, eu também assistia a tudo de longe e nesta situação eu pude notar que ele talvez fosse alguns anos mais velho que eu, mas ainda sim em outra coisa que eu não pude identificar qual podia ser, ele parecia jovem e inexperiente. O que me deixou mais embriagada de desejo foi o fato dele não demonstrar ter medo de mim. Ao contrário do que eu via ao redor ele me fitava com seus lindos olhos com tanto carinho que eu podia simplesmente abraçá-lo por horas como a um urso de pelúcia, sem dizer sequer uma palavra. Vi que ao longe alguém me chamava, mas naquele momento tudo o que eu menos queria era sair da presença do ser majestoso, que me dominava com os olhos, talvez eu temesse ter que deixá-lo para trás. Senti em meu braço uma mão forte me puxar na direção da bela escadaria, virei - me de costas para ele e segui deslizando pelo salão. Segundos depois eu estava de volta ao topo da imponente escada.
De onde eu estava passei meus olhos pelo salão analisando as diversas expressões que pareciam tentar entender o que havia acontecido. Eu abri um sorriso, cheio de malícia e fiz esforço para esquecer aquele homem que insistia em chamar a minha atenção. De um modo inexplicável percebi o som de minha voz subindo e saindo de minha garganta forte e delicada ao mesmo tempo. Chamando a atenção de todos que se calaram de imediato, me vi pronunciando:
 — Prestem atenção. Ouçam com muita atenção... Eu, sua rainha venho comunicar que de hoje em diante... Não colocarei... — arfei empolgada. — Sequer uma gota de sangue humano em meus lábios.”

Tal cena foi sugada por um vácuo e tudo de repente ficou negro e em silêncio. Num segundo eu estava vendo e vivendo aquela situação e em outro momento eu sentia meu coração pulsar forte me fazendo despertar com um grito agudo soando pelo vazio quarto do hospital. Aquilo não tinha cara de ser só um sonho, era real demais para ser somente um sonho. Eu cheguei a sentir o cheiro do salão enfeitado e o cheiro das criaturas magníficas que ali estavam.
Meu peito ardia, meu coração ardia e um desespero me fez acordar tremendo e suando. Olhei em volta e tive a certeza de que voltara ao quarto vazio e sem vida onde eu tinha passado os últimos meses. Tentei respirar, mas o ar teimava em não vir. Será que a parte de não beber sangue — eca — tinha alguma relação com as coisas estranhas que eu estava sentindo? Será que aquele “eu” do sonho tinha realmente alguma relação com o meu novo “eu”?  Sentei, meu desespero era tanto que comecei a procurar o botão que traria a ajuda de algum enfermeiro. Nem foi preciso, já que meus gritos chegaram até a sala de espera e logo dois enfermeiros, um homem negro e uma alva mulher atravessaram a porta do recinto correndo para me acudir.
 — O que você tem querida? — a moça, que aparentava uns 40 anos perguntou já medindo pressão e ouvindo meu coração — Seu coração está batendo tão forte... – ela olhou com surpresa para o colega, provavelmente àquela altura já era para meu coração ter morrido de tão forte que ele batia dentro de mim.
 — Chame o médico agora! — ela pediu ao belo negro, deitando minha cama e preparando uma enorme agulha para enfiar em meu braço.
 — NÃO!!!! — eu gritei ainda assustada. Ela me olhou com carinho e pediu para eu não ter medo, que era só um calmante, que meu coração estava batendo de um jeito que ela jamais tinha visto e que eu precisava me acalmar. — O que foi? O que está acontecendo? — o velho senhor, clínico da família, entrou rápido pelo.
O doutor se aproximou e refez todos os passos dados pela enfermeira. Ele estava de olhos tão arregalados, como se estivesse perplexo com o que via. Pegou - me pela mão e sorriu de modo sincero. Minha cabeça estava a mil e eu não conseguia organizar meus pensamentos, tudo o que borbulhava em meu cérebro eram as lembranças daquele sonho bizarro. Eu não vi quando a enfermeira enfiou a enorme agulha em meu braço, pra dizer a verdade eu sequer tinha sentido a picada, o que senti em poucos minutos foi o efeito daquela droga que entrava na minha corrente sanguínea e estava me deixando meio grogue. Agora o quarto ao meu redor girava e meus olhos ficaram pesados até que tudo ficou escuro novamente e eu voltei a dormir.
Acho que já devia ser umas três da tarde quando eu voltei a mim. Meus pais estavam ao meu lado de olhos vidrados, provavelmente esperando meu despertar. Minha cabeça ainda estava meio tonta, como se eu estivesse em alto mar. A luz que entrava pela janela ainda me incomodava, mas não me amedrontava como da outra vez. Com os olhos semi cerrados eu fui lembrando aos poucos o que havia acontecido durante a madrugada.
 — Mãe... — murmurei cansada e com preguiça de falar.
 — Filha! Que bom que você acordou... — o sorriso de minha mãe era sempre tão quente e cheio de vida que me fazia esquecer os meus problemas, mas naquela tarde eu não conseguia ser tocada pela leveza dele – Como se sente?
— Como se um trem tivesse atropelado minha cabeça. — eu não queria preocupar a minha família – O que aconteceu?
Meus pais se olharam, talvez buscando as palavras certas para falar. Então meu pai começou.
 — Na madrugada você acordou com o coração em colapso... O médico não sabe como você não teve uma parada cardíaca fatal...  — ele me olhou e suspirou — Ele nos disse que qualquer outro ser humano teria... — pausa, as palavras dele estavam com um tom tão sério e sombrio — teria... Morrido...
— Mas você tem muita sorte e é realmente iluminada... — minha mãe me beijou a testa. — E por isso está aqui, bem...
Pisquei algumas vezes como se isso fosse me ajudar a esclarecer o que tinha acontecido. Então, mais uma vez era para eu estar... Morta?! Tudo estava conspirando para isso pelo menos. O que faltava agora? Choque elétrico? Alternativas ainda restavam e não era hora para eu ficar paranóica.
 — Quer dizer que eu escapei mais uma vez — eu disse tentando ser engraçada — Que coisa...
Apesar das preocupações ali serem outras, eu não conseguia deixar de pensar no sonho da noite passada e em tudo o que acontecia com meu corpo. Será que era realmente possível que eu estivesse me transformando numa... Numa... Vampira? Eles não são apenas contos bobos de quem não tem nada pra fazer? Me transformando ou não eu com certeza precisava conversar com alguém, pois se eu não estava me tornando um mostro provavelmente eu estava ficando louca, o único problema era que não tinha absolutamente ninguém com quem conversar sem parecer uma completa maluca. DROGA! Uma coisa era verdade, as mudanças aconteciam aos poucos, primeiro meu corpo, depois meus sentidos super aguçados e eu mal podia esperar a próxima mudança esquisita que estava por vir. Outra coisa que naquele dia ficou mais forte foi meu incontrolável desejo em ver sangue.
Para o meu desconforto, logo a porta do quarto em que eu estava não parava de abrir e fechar no ritmo frenético das visitas que iam e vinham. Meus sentidos estavam completamente embaralhados, confusos. A luz que entrava pelas janelas já não ofuscava os meus olhos que por alguma razão pareciam muito mais rápidos para captar imagens.
Era noite de domingo — o pior dia de todos para mim — eu estava deitada sobre a cama do hospital observando o teto, viajando em meus pensamentos. Fazia sete dias que eu havia acordado e estava em observação no hospital. O sono não chegava e tudo o que eu mais queria era sair dali e voltar a minha vida de antes, talvez até conseguisse esquecer tudo o que estava acontecendo. Ouvi o som de passos firmes vindo em direção ao meu quarto. Passos determinados que não soavam em nada com os passos das pessoas que costumavam passar por ali. Àquela hora da noite eu não receberia visitas, isso era bem improvável. Me sentei na cama, pois de alguma forma quem estava chegando ascendeu a chama da desconfiança dentro de mim. Como um alarme soando alto em minha cabeça alguma coisa pedia para que eu saísse do quarto. Tudo bem que eu me sentia novinha em folha e extremamente disposta, pronta para uma maratona, mas meu quarto ficava no sétimo andar e não tinha por onde sair que não fosse a mesma porta que naquele momento me trazia a ameaça. Com rapidez corri para o banheiro. Ali não era o melhor lugar para me esconder, mas pelo menos eu ganhava mais tempo para pensar. Tudo estava escuro, mas meus olhos pareciam enxergar melhor do que sob a luz do Sol. Fiquei inerte, encostada na porta, com uma pequena fresta por onde eu tinha visão do quarto todo. A impressão que tive foi que meu coração parou de bater e que eu não tinha mais respiração, para que o silêncio ficasse maior. A porta se abriu devagar e para minha surpresa eu não vi nada além de uma sombra, talvez um vulto entrar. De onde eu estava vi aquele espectro tomar a forma de um homem maduro, postado ao lado da cama que ainda a pouco eu ocupava. Vi que ele devia ter quase dois metros de altura tinha porte atlético e emanava um cheiro familiar. Acostumada a ouvir o coração e a respiração de todos que me visitavam, reparei que aquele homem não emitia som algum de seu corpo. Ele parecia um morto, sem qualquer atividade corporal. O cheiro familiar por alguma razão me fez estremecer e eu tive a certeza de que ele sabia exatamente onde eu estava.
Abaixei a cabeça e suspirei, acreditando que ele logo viria até mim. Eu não sabia lutar, nunca sequer tinha me envolvido numa briga. Quais seriam as minhas chances contra aquele brutamontes? Nenhuma eu sei.
Tomando coragem — coragem que eu não sabia de onde vinha — abri a porta, tão silenciosamente quanto ele e parei esperando que ele se virasse para encará-lo.
 — Olá, Ruby... Quanto tempo... – a voz dele era grossa e tinha um sotaque estrangeiro que eu não consegui identificar. Talvez ele fosse alemão ou de algum país da Europa oriental. Algo me dizia que era exatamente isso. — Há quanto tempo esperamos por você?!
 — Quem é você?  — minha pergunta soou um pouco idiota, mas era tudo o que eu queria saber naquele momento. Por alguma razão eu não senti medo dele, eu me senti ameaçada, mas não intimidada. Era como se ele tivesse razões para me temer e não eu a ele — Por que está aqui?
 — Quantas perguntas... Você deveria ser mais educada comigo...
Ele ainda estava de costas para mim e eu tive a certeza de que se ele se virasse a situação iria piorar. Fui lentamente me aproximando da porta, talvez ele não fosse tão bom em perceber as coisas como eu. Eu precisava mantê-lo falando.
 — Onde você pensa que vai? – ele perguntou, acabando com as minhas esperanças. Mais uma vez a morte parecia vir atrás de mim. Senti uma raiva latente e num sopro de angustia e desespero corri rapidamente para a única saída, acreditando que ele não fosse capaz de me alcançar, o que para minha decepção aconteceu. Ele era mais rápido do que eu e me segurou firme junto à porta. DROGA!
 — Você não acha que vou te deixar escapar. Acha?
O rosto dele era o de um homem velho, porém belo, lindo demais. Ele estava mais para um Richard Gere, um astro de cinema. Com olhos amarelados cheios do mais puro êxtase. É loucura, mais me senti atraída por ele.
 — O que você quer comigo afinal? Você quer me matar? Vamos FAÇA! — eu tive a certeza de que estava gritando, mas acho que ninguém ouviu meu grito. — Matar? Você? — sua risada correu o quarto de modo sombrio — Eu jamais cometeria tão abuso, tão erro... Precisamos de você... Você viva!
No meio de tudo isso pelo menos uma boa notícia: aquela não era a noite em que eu morreria. Vamos contar as minhas desvantagens; ele era maior, mais forte e mais rápido. Tinha um jeitão sobre humano, aliais ele com certeza não era humano e eu — que coisa — eu era pequena, mais fraca, mais lenta e acima de tudo era uma humana, por mais especial que eu fosse, eu ainda era com certeza humana. Meu coração voltou a bater forte e logo eu senti um calor aquecer meu corpo. Uma energia correu dos meus pés a cabeça e eu concluí que naquele momento eu tinha forças para pelo menos me defender.
— ME SOLTA! — sem fazer muito esforço, empurrei o homem para longe. Eu não sou capaz de explicar, mas ele caiu próximo a janela, de olhos vidrados em meus movimentos, surpreso com o meu feito.
 — Brilhante!!! Você é magnífica! — ele disse se pondo de pé tão rapidamente que eu mal pude vê-lo – Você é realmente a melhor de todos nós...
Eu não queria ficar para ouvir as loucuras daquele “senhor”, por isso aproveitei seu estado de perplexidade e saí em disparada pelo corredor vazio do hospital. Sabia que ele podia me alcançar facilmente, não era preciso nem tempo para isso, mas eu não tinha por quem gritar, tudo estava tão calmo naquele andar, que parecia que todos estavam enfeitiçados num sono pesado e profundo. Apesar da adrenalina que jorrava no ar — eu podia sentir — meu corpo não esboçava nenhum cansaço, sempre firme seguindo em frente. Olhei para trás e não vi ninguém. O tal homem não estava me seguindo, eu não conseguia sequer captar o seu cheiro. O silêncio que tomava conta do espaço me fez refletir rapidamente em tudo o que estava acontecendo. Pensei na forma como aquela criatura tinha entrado no meu quarto, pensei na forma como ele era ágil e forte, pensei em como ele era belo e extremamente encantador mesmo quando me ameaçava. Talvez eu estivesse me transformando naquilo que ele era. Talvez ele já tivesse sido como eu. Balancei a cabeça, tentando não pirar. Voltei a respirar — tive a impressão de ter parado enquanto corria — e olhei em volta procurando um telefone. Eu precisava sair dali. Por mais encantador que o desconhecido fosse, ele me dava medo e despertava uma sensação de angustia que eu jamais havia sentido.
 — Droga! Nesse lugar não tem telefone... — ouvi passos ao longe e logo me veio à lembrança o caminhar daquela criatura. Voltei a andar rapidamente em busca de algum telefone ou alguém que pudesse me ajudar. Ele estava atrás de mim, nem era preciso olhar para ter a certeza. Percebi que aquele homem estava gostando de me ver daquele jeito, cheia de angustia, pois ele podia a qualquer momento simplesmente me pegar, isso era fácil.
 — Ah... Ruby! — eu o vi dizer — Este teu cheiro me deixa muito... Humm... Enche-me de desejo...
Eu estava num corredor branco, de piso lustrado. As luzes fosforescentes oscilavam em vários pontos como se a nossa energia estivesse interferindo na energia elétrica. Eu vi diante de mim, a poucos metros uma janela dessas de correr, fechada por uma trava.
 — Puxa, que sorte... — eu sussurrei.
Minha única chance de sair dali era dar um jeito de abrir a janela e pular. Que infelicidade, a morte voltara a bater em minha porta. Na altura em que eu estava com certeza eu não sobreviveria, mas eu não queria ficar para saber o que o tal homem estava querendo comigo. Era ficar e morrer por ele ou era morrer da queda. Corri até a janela com o demônio vindo vagarosamente atrás de mim. Havia um cadeado talvez para impedir que loucas em tratamento psiquiátrico se jogassem dali.
 — Abre, abre... — sussurrei, tentando forçá - lo a abrir — Este é o momento de ter força... Droga! O que eu tô dizendo? Se eu pular vai ser o fim... AHHHH!
O homem havia parado e agora estava em silêncio admirando o meu medo. Ele nitidamente esperava que eu tomasse alguma atitude, qual era eu não sabia. De repente senti uma força nova se espalhar por meu corpo e de um jeito bastante inesperado rompi o cadeado com as mãos. Ele de onde estava riu e bateu palmas. Algo me dizia que aquele ser realmente não iria me fazer mal algum, mas meu sexto sentido gritava me alertando o quanto ele era perigoso.
 — Isso Ruby! Mostre - me do que você é capaz... — ele voltou a caminhar lentamente, com um sorriso cheio de maldade.
Eu olhei para baixo e só confirmei o que temia: estávamos à uma grande altura. Nem sei dizer há quantos metros do chão, mas com certeza se eu não morresse ficaria quase morta. Onde eu estava com a cabeça quando não procurei uma escada pra descer? E que droga de hospital que ninguém me ouvia? Parecia até que eu estava sozinha naquele andar. Subi no parapeito da janela e sem querer pensar muito — se eu parasse pra pensar não pularia — me atirei. Meu corpo caia pesado, mas a sensação era de que eu estava planando, leve como uma pena. Não tive nem tempo de admirar a bela vista. Quando o chão foi ficando cada vez maior e mais perto, fechei os olhos pronta para o impacto fatal. Tudo aconteceu em tão poucos segundos que não tive nem tempo de fazer uma última prece a Deus. Pensei na minha família. Foi então que sem nenhuma explicação, senti meus pés tocarem delicadamente a calçada gelada. Abri os olhos e na minha mente veio a idéia de estar no paraíso, mas ao contrário do que esperava eu ainda estava ali, viva e inteira, mesmo depois de uma queda daquelas.
 — Não... Não... Não é possível?! — sussurrei olhando para cima e confirmando o meu feito. Lá na janela estava o meu perseguidor, aplaudindo loucamente, como se já soubesse que eu era capaz.
 — BRAVO RUBY! BRAVO! – eu o ouvi dizer.
Eu estava viva - tirei a dúvida me dando um baita beliscão. Olhei em volta para ter certeza que ninguém tinha visto aquilo tudo. Ao mesmo tempo em que me senti aliviada, um medo inexplicável se apoderou de minha mente, pois eu não sabia mais nada ao meu respeito. No que eu estava me transformando? Meu DEUS! Olhei para cima e não vi ninguém. De fato, acho que tudo o que ele queria era testar até onde ia a minha força. Ele parecia saber muito de mim e eu tive a leve impressão de conhecê-lo.
O cheiro daquele homem estava em todo o lugar, mas eu não sentia mais a sua presença, por isso voltei para dentro do hospital e por mais estranho que possa parecer nenhuma das pessoas que lá estavam àquela hora, sentiu minha falta ou sentiu que alguma coisa incomum tivesse acontecido.
Segui para meu quarto com a nítida sensação de tudo não ter passado de um pesadelo, aquilo não podia ser real. Não era possível. Todas as partes de meu corpo doíam de um jeito único e forte. Meus braços e pernas pareciam fracos. Também pudera depois de pular do sétimo andar de um prédio e não me esborrachar era o mínimo que eu deveria sentir. Deitei - me na cama, com vontade de chamar algum enfermeiro para que ele me aplicasse morfina. Eu estava só e com medo, medo do desconhecido futuro que me aguardava. Não consegui fechar os olhos. Eu estava em alerta, pronta para pular da janela novamente, e apesar de sentir sono meus olhos não conseguiam simplesmente relaxar e fechar. Eu queria poder pelo menos trancar a porta, mas as portas daquele hospital não tinham travas.
Lá pelas cinco da manhã, percebi que alguém se aproximava. O cheiro familiar e os passos ritmados me fizeram deduzir que meu médico vinha para ver como eu estava. Ahhh, como eu queria pode contar sobre o que tinha acontecido, mas lógico que se eu abrisse minha boca passaria da ala de observação para a ala de doentes mentais. Era melhor ficar quieta.
 — Bom dia Ruby! — ele não sorriu, seu rosto tinha um “q” de seriedade que eu nunca tinha visto — Precisamos conversar...
Será que eu estava pior? Será que tudo o que tinha acontecido fora somente fruto da minha mente doente? Sentei - me pronta para ouvir as piores coisas possíveis.
 — Tem algo de errado comigo doutor? — perguntei ainda com uma forte dor de cabeça, mais forte do que queria — É sério?
Ele puxou uma cadeira próxima e se sentou ao meu lado, juntou as mãos e eu vi mais uma vez a cicatriz em forma de cruz. Curiosamente me prendi àquele desenho.
— Ruby... Eu quero que você preste muita atenção no que vou falar... Não me interrompa. Certo?
Fiz sinal positivo com a cabeça. O que será que era tão sério que nem meus pais podiam ouvir?
 — Você deve ter notado coisas diferentes, desde que despertou não é? — fiz que sim com a cabeça. Como ele sabia só por Deus. — Coisas que estão acontecendo com seu corpo, como essa beleza imaculada, como uma estranha sensação de invencibilidade...
Ele sabia dar voz às coisas bizarras que me aconteciam. Nem pisquei os olhos na esperança de conseguir entender tudo de uma vez.
 —... Você está forte... Mais ágil... E com certeza seus sentidos estão mil vezes mais sensíveis do que os meus... — ele abriu um leve sorriso.
Uma coisa era fato, ele não era como eu e eu já não era como ele, agora bastava que nomeássemos as nossas características.
 — Você provavelmente nunca ouvi falar da entidade RealCorpus, não é?
— Não... Nunca ouvi falar... — respirei fundo e pensei em grupos como a maçonaria.
 — Pois bem... — ele fez uma breve pausa e prosseguiu — Você pode achar que é loucura o que vou dizer, mas tente entender antes de surtar... Ok?
Ele estava me taxando de louca. Talvez eu realmente fosse uma.
 —... A RealCorpus é um grupo formado por homens e mulheres que cultuam e que sabem de tudo — ou quase tudo — o que acontece no sub - mundo. Não é o submundo que você conhece... O submundo a que me refiro é o mundo onde seres fantásticos vivem, controlando esse mundo que você conhece... — ele olhou em volta. — Estou conseguindo me fazer entender?
Fiz que não com a cabeça, arregalando os olhos e me sentindo uma completa idiota. Talvez o doido ali não fosse o paciente, mas sim o médico.
— Não sei aonde o senhor que chegar... — eu disse.
— Você acredita que existam vampiros? — ele me perguntou e eu tive a certeza de que ele estava doido de pedra. Abri um sorriso de sarcasmo, mas alguma coisa dentro de mim fez meu coração esquentar e eu tive a certeza de que meu rosto ficou vermelho como um tomate.
— Devo acreditar? — perguntei.
— Deve! — ele respondeu de um jeito frio e severo. — Eles acreditam em você...
— Olha doutor João, sinceramente... Acho que essa conversa está me deixando assustada... — eu sou do tipo de pessoa cética que só acredita vendo...
Ele se levantou incrédulo com a minha descrença.
— Ruby, tudo o que você vê de diferente em seu corpo e que é humanamente sem explicação, pode ser explicado por eles...
 — Vai me dizer que o senhor é um... Vampiro? — eu ri, pois aquela conversa não tinha pé nem cabeça, esse tipo de coisa tinha cabimento desde que não fosse falado de modo sério.
 — Não! — ele respondeu. — Sou um integrante da RealCorpus, organização que une humanos e não humanos em busca de um bem comum. Eles estão em tudo o que você possa imaginar, mas sempre em lugares que possam lhes dar destaque... São políticos, são grandes cientista... São seres influentes, milionários. Você não tem idéia... Eu e tanto outros humanos somente os seguimos e ajudamos para que tudo se mantenha em segredo...
— E onde eu entro nessa história maluca? E por que humanos se aliariam a eles? — parei para pensar e até que aquilo fazia algum sentido. Os políticos eram tão crápulas que só sendo criaturas do mal mesmo... Sugadores de dinheiro...
— Você... Bem, você por algum motivo despertou do coma e está se transformando numa deles... Nós nunca tivemos conhecimento de tal coisa... Você me parece ser a primeira que não foi contaminada com o veneno deles... — Veneno? — eu ri alto.
— Sim, veneno! É assim que nos referimos ao sangue deles. — ele falava sério — Para se tornar um vampiro é preciso beber o sangue deles... Ter contato com sangue deles faz um ser humano comum se transformar. Tudo dentro do corpo humano é alterado por um gene singular que é o fator decisivo para a manifestação do vampirismo... Pelo que sei você não teve contato com nenhum deles e isso é só o começo...
— Então tem mais? — eu estava cansada e não queria ouvir aquele médico amalucado.
— Seu coração ainda pulsa, você tem respiração, você é toda especial — ele passou as mãos nos cabelos grisalhos e se aproximou de mim. Eu me encolhi. — Aquele homem que esteve em seu quarto... — ele sabia do ocorrido. — Ele era um vampiro... Mas eu não o conheço...
Fiquei boquiaberta, pois não esperava que mais alguém tivesse testemunhado aquilo. Uma raiva repentina, por ele não ter me ajudado surgiu, mas ainda sim fiquei aliviada, pois aquela era prova de que tudo tinha sido real e eu não estava louca ou então ambos estávamos loucos.
— O senhor viu tudo e não me ajudou? — falei alto tentando fazê-lo entender que eu poderia estar morta.
— Tente entender... A RealCorpus tem inimigos, muitos... Os integrantes da DomS. sigla de DomSacres, até onde eu sei agem como nós da RC, só que para eles nós humanos não passamos de servos ou um grande rebanho. — ele se aproximou de meu rosto e o tom de sua voz ficou mais baixo e contido — Tudo é mantido sob sigilo, mas o poder do mundo está divido entre esses dois gigantes. As grandes empresas, as grandes guerras, as grandes vitórias da humanidade... Tudo tem a influência deles e mesmo sendo um aliado da RC eu não posso, não podia interferir no que estava acontecendo aqui. Eu sabia que você conseguiria sair daquela situação com louvor... — ele suspirou. — E mesmo assim no que eu poderia lhe ajudar? Um humano sem nenhuma das suas maravilhosas habilidades? E você ainda está viva... Isso é o que importa...
— Não por sua causa! — eu disse indignada demais para aceitar as explicações dele. — Eu podia estar morta... — ele me olhou com carinho.
— Morta? Você? — ele riu. – Você não precisa mais se preocupar com isso minha querida... Uma das maiores dádivas que vocês possuem é a eternidade... Por razões que ainda me são desconhecidas vocês têm somente todo o tempo do mundo pela frente. Fome, frio, cansaço... — ele estava extasiado. —Todos os maus que afligem o corpo humano não serão problemas para você. Do modo como seu corpo vem sofrendo a mutação em breve nada mais poderá lhe machucar a não ser outro vampiro.
— Imortal? — eu ri mais alto tamanha era loucura. Ninguém tinha o direito de ser imortal. — Você está doente! Ninguém é imortal!
— Você e todos eles são! — pelo jeito a idéia de imortalidade era uma ótima coisa para ele — Se você fosse como nasceu... Já era para estar morta há muito tempo... Não teria sobrevivido ao tiro e se sobrevivesse não agüentaria o colapso do seu coração aquele dia... — talvez ele tivesse razão. — E além do mais você nunca teria sobrevivido à queda do sétimo andar... Aquele homem só estava te testando...  — ele parou e refletiu. — Mesmo depois de trabalhar com tantas amostras de sangue de seus irmãos... — Dr. João levou as mãos à cabeça, demonstrando uma curiosidade enorme pelo enigma em que eu havia me tornado. — Nunca vi nada igual ao que você possui nas veias. Seu sangue ainda é humano, mas o gene do vampirismo está lá, como se dormisse um sono leve e despertasse vez ou outra. — o velho homem andava de um lado a outro do quarto, impaciente. Sua adrenalina estava lá no alto e eu podia sentir a mistura dela a tantos outros hormônios escapulirem de seu corpo humano. — Só não tenho idéia do por que...
As palavras do Dr. João até que faziam sentido. Tudo o que aconteceu comigo nos últimos dias era completamente sem explicação, pelo menos não havia explicações humanas para tantas coisas esquisitas. Olhei para o teto tentando organizar meus loucos pensamentos. Ele me fitava na espera de minha aceitação. Talvez vampiros realmente existissem e talvez eu estivesse me transformando numa deles. O que eu diria aos meus pais? Ai Meu Deus!
— Está bem... — eu disse. — E se o que você diz for verdade...  O que eu tenho que fazer?
O doutor respirou aliviado ao ver que eu começava a acreditar naquela história. — Você é especial... Veja que você é a única deles que conheço que não tem sensibilidade à luz do Sol. Por algum motivo que me é mantido em segredo, você é de suma importância... Segundo o que dizem entre os corredores da nossa sede, a história será dividida como antes e depois do seu despertar! — ele pegou minha mão. — Eu sabia que os membros da RC estavam à procura de algo ou alguém muito especial, só não podia imaginar que o que eles buscavam estava tão perto assim de mim. — seus olhos brilhavam de um modo sereno, quase infantil. — Eu também não podia imaginar que a DS também procurassem a mesma coisa...
— Tudo ainda está muito confuso para mim... Eu não sei o que fazer... O que ainda pode mudar... — falei assustada sabendo que tudo seria diferente. — Eu preciso saber mais... Você tem que me contar mais...
— Ruby... — o médico disse com pesar. — Tudo o que sei é que o objetivo da DS é tão obscuro e sinistro que nem eu sou capaz de imaginar. Tome muito cuidado, pois você é especial e tem algo que as duas organizações querem... Eu só não sei o que é... E a partir de hoje vou tentar estar sempre por perto... — ele olhou o relógio de ouro no punho e prosseguiu. — Tenho que informar os meus superiores... — ele seguiu para a porta.
 — Doutor... – chamei cabisbaixa. — Não sei se é realmente isso o que eu quero...
— Como assim Ruby?  — ele perguntou se voltando para mim. — Não estou entendendo...
Eu não precisava dizer muito, pois meus olhos cansados podiam contar tudo. Ainda sim sussurrei:
— O senhor disse que não sabe o que querem comigo... Seus aliados e seus inimigos... — ele fez sinal positivo com a cabeça. — Como posso confiar? Como posso ter certeza de que não me farão mal algum?
Dr. João pareceu surpreso com a minha dúvida e tornou a se sentar ao meu lado.
— Criança... — ele começou. — Não posso garantir que nada de mal irá lhe acontecer, independente do lado que você escolher... Não sei as reais razões para existir a tal rivalidade entre as duas organizações — pausa. — Há muitas coisas envolvidas nessa guerra silenciosa, coisas demais, que datam de muitas dezenas de anos atrás... — ele voltou a me olhar maravilhado. — Mas nesses anos todos em que defendo os ideais da RC, pude confirmar que o que eles querem é melhorar a nossa qualidade de vida... Eles nos defendem, nos respeitam, estão nos ajudando com a descoberta da cura de doenças, trabalham não só em prol dos próprios interesses, mas lutam pelos interesses humanos... E isso é o que os diferencia da DS, o que me leva a crer que se você decidir por aceitar essa sua nova vida, aceitar que nada vai ser como antes, a RC é a melhor escolha... Eles poderão te ajudar... — Dr. João parecia sincero em suas palavras, mas o medo e a insegurança de adentrar nesse mundo novo explodiam dentro de mim. — Agora Ruby, se você não optar por nenhuma dessas escolhas, eu não sei o que pode acontecer exatamente, só sei que não será nada bom... Você ainda vai passar por mais mudanças e acredite, quando o que dorme dentro de você acordar de vez, a sede por sangue vai te fazer perder a cabeça.
Meus olhos cheios de água o encaravam com frieza, com raiva por ele estar me intimando a fazer uma escolha ali, naquele instante. A verdade era que eu não queria me envolver, não queria fazer parte daquela maluquice.
— Ainda sim... — eu disse. — Quero tempo para poder pensar... Não quero que minha vida seja afetada, não quero que minha família seja afetada... Tudo o que eu preciso é de paz... Não estou disposta a entrar numa guerra que não é minha...
Ele concordou contrariado, sabendo que aquela decisão não era a mais correta. Ser uma vampira me dava respostas a tudo o que meu corpo estava passando e o que seria de mim dali por diante eu nem podia imaginar. RealCorpus e DomSacres, duas organizações que tinham em comum o interesse no que eu estava me tornando. Talvez eu devesse realmente procurá-los, talvez eu devesse simplesmente tentar voltar a viver minha vida normal, mesmo que fosse difícil. Será que eu sentiria a tal sede de sangue? Será que minha família seria capaz de notar as diferenças? Eu esperava que não e não. O Doutor saiu do meu quarto e eu fiquei fitando o céu claro da manhã recém - nascida. Será que tudo aquilo era real? Voltei a lembrar do sonho que tivera, pensei em como ele parecia verdadeiro. Agora as peças se encaixavam perfeitamente e eu apesar de exausta, estava satisfeita por ter encontrado uma explicação para tudo aquilo.


Que tal,gostaram?Caso queiram ler no Bookess,clique aqui e para ir no site da obra aqui.Bom,vamos conferir o Book Trailer que a propria autora fez(de acordo com o que vi,claro,pode ser que teve ajuda de algum amigo,mas isso não importa):
Gostaram?Quero comentários viu?

XoXo,

Vicky

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